Um igual ao outro na quarta revolução

Já não é mais novidade contar por aí que a quarta revolução industrial está chegando e que ela veio pra ficar. Coloque o verbete “Indústria 4.0” no Google, e estaremos repletos de artigos e reportagens sobre o assunto: o que é, o que compõem, da onde veio, e qual país está na liderança e está dando um verdadeiro 7×1 com o restante do planeta em relação a este assunto. E se colocar numa roda de bate papo sobre inovação e empreendedorismo, a indústria 4.0 vai aparecer nos primeiros minutos da discussão, não tem jeito, indústria 4.0 é o assunto do momento.

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Mas algo me deixava intrigado, uma vez que até pouco tempo a atrás, tudo o que víamos sobre inovação, a sensação percebida é de que era algo muito distante, ela não existia na nossa realidade, assim como a cura das doenças que demoravam (e ainda demoram) décadas para se tornar algo concreto. Mas parece que se tratando da quarta revolução industrial parece que o paradoxo de tempo da inovação mudou, e muito rápido. E levando em consideração o contexto tecnológico, isso de fato é esperado, mas em relação a nós, estamos prontos, concretos para uma nova revolução industrial?

Na semana passada Curitiba deu seu ar da graça e fez um calor de 30 graus Celsius em pleno horário de verão de segunda feira, e após expediente fugi da academia e fui dar uma volta no parque Barigui. Enquanto fazia a caminhada, dei um tempo aos playlists de música do Spotify e resolvi ouvir um Podcast pelo SoundCloud, e encontrei uma palestra gravada do consultor de inovação tecnológica Jorge Bruno com o tema “O Futuro – indústria 4.0. Gente 4.0?”, para o VII Encontro de Administradores de Recursos Humanos, promovido pela Comissão Especial de RH do CRA-RJ, e comecei a ouvir.

Assista a palestra neste link.

Aproveite e coloca o vídeo para assistir depois, vale a pena.

Nesta palestra ele começou com uma pergunta e uma afirmação.

“ O que será das pessoas? “

“ Se a tecnologia está disponível, ela está ultrapassada. ”

Baseado nessas duas premissas, ao longo da palestra, ele fez uma contextualização histórica da evolução tecnológica antes mesmo da primeira revolução industrial, como por exemplo o advento da agricultura. E a cada nova tecnologia que surgia compreendia a transição e consolidação de uma nova fase da revolução industrial, e no contexto contemporâneo com tudo que temos a disposição atualmente está servindo de transição para a quarta revolução industrial. Ter feito essa revisão histórica foi muito interessante, porém ao mesmo tempo que o contexto tecnológico do passado pautava as inovações do presente, uma coisa que ficou claro era como o ser humano tinha sua função a cada fase da revolução industrial.

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E uma dessas contextualizações foi o conceito de economia de escala com a produção em série implantado por Henry Ford, baseado na repetição e produção de um carro igual ao outro, que passou a ter sua influência não somente na indústria automobilística, mas em toda uma cadeia produtiva de bens de consumo. E mesmo com a vinda de novos conceitos de administração como por exemplo Taylor e Fayol, na quebra da complexidade humana e transformar em coisas simples com o nascimento da especialização, olhando as partes e não o todo, houve o que se chamou de paradigma do modelo mental fordista, aonde além dos carros, tudo é feito um igual ao outro inclusive na educação.

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Nas palavras literais do palestrante a seguinte frase se formou – “…um aluno igual ao outro, advogado igual ao outro, psicólogo igual ao outro, engenheiro igual ao outro, administrador igual ao outro, aprisionados na grade curricular recebendo como garrafas de linha de produção o conteúdo programático. Meu Deus, aonde vamos parar? E no final, uma cerimônia de formatura, que significa? O ato de tirar da forma. ”. E nesse momento parei de caminhar e comecei a olhar as pessoas a minha volta, e me veio a mesma sensação estranha que senti quando entendi o contexto de Matrix (sim, daquele filme de 1999 e que te fez questionar sobre a realidade), e me senti de certa forma um bobo, pois assim como todas aquelas pessoas que ali observava certamente eu fazia parte deste paradigma do modelo mental fordista.

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Retomado a caminhada o baque foi ainda maior, quando se constatou que nós temos uma educação que não evoluiu como as outras tecnologias evoluíram, como por exemplo: as inúmeras salas de aulas de hoje que, no Brasil seguem os mesmos padrões de salas de aula da primeira revolução industrial para treinamento de operários em chão de fábrica. E para arrematar, foi exposto uma pesquisa de George Land de seu livro Ponto de Ruptura e Transformação, que relata os resultados de testes com um grupo de 1.600 jovens nos EUA. O estudo foi baseado num teste utilizado pela NASA para seleção de cientistas e engenheiros inovadores e os resultados concluem que uma criança de cinco anos possui 98% da sua capacidade criativa e, quando adulto acima de 25 anos seu índice cai para os míseros 2%. A conclusão é que não é a idade que faz as pessoas deixar de serem criativas, mas são os bloqueios mentais que são criados ao longo dos anos, principalmente pela educação, das famílias, das escolas e das empresas, um verdadeiro sucesso no processo inibitório do pensamento criativo.

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Até parece que o momento “Black Mirror” chegou, quando você descobre a verdade e agora corre perigo de vida com agentes querendo te reprogramar a sua memória (veja o Episódio 5 da Terceira temporada) pois você está com um defeito na sua visão e está começando a ver o que não deveria. Ficções cientificas a parte, a constatação é de estamos a todo momento falando de indústria 4.0, e ainda educamos pessoas economicamente ativas com mentalidade 1.0 e isso é muito sério. No Brasil temos um longo caminho sócio econômico para chegar a uma indústria 4.0, e muito disso vai depender da qualidade e do poder de inovação do brasileiro, que mesmo olhando para as escolas mais avançadas e caras do Brasil estamos ultrapassados em comparação com as escolas alemãs, que são os verdadeiros laboratórios de tecnologia e inovação.

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Entrar nessa questão é uma discussão ampla, enquanto alguns vão resumir tudo isso a famigerada “síndrome de vira-lata brasileiro”, outros estão buscando verdadeiras alternativas e soluções para isso. A verdade e a notícia positiva é que podemos aos poucos, trabalhar internamente para que sejamos cada dia mais criativos e inovadores. Não estou propondo de deixar os estudos ou comprometimento com o trabalho, mas de encontrar formas criativas de propor um valor significativo a sociedade, pois a tecnologia da quarta revolução industrial está chegando de uma forma muito tênue, e quando chegar nada será “um igual ao outro”.

E a conclusão que fica é: não, não estamos prontos para uma quarta revolução industrial.

Até a próxima!

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